Por Dr. João Armando*

Anualmente, especialistas em Eletroconvulsoterapia (ECT) se reúnem em um evento paralelo ao Encontro Americano de Psiquiatria, o encontro da International Society for Electroconvulsive Therapy and Neuromodulation (ISEN). Este ano, o tema dominante do evento foi cognição.

Durante a reunião foram apresentados novos estudos que conseguiram determinar melhor quais são as perdas cognitivas e em qual período elas ocorrem. Foi demonstrado também que a utilização de pulsos cada vez mais breves e o uso do posicionamento de eletrodos unilateral à direita podem melhorar esses efeitos. Além disso, as pesquisas em andamento ganharam novas fronteiras, tendo agora a possibilidade de descobrir quais anestésicos têm menor prejuízo cognitivo.

Pesquisadores mostraram, também, novos protocolos para melhor avaliação e quantificação desses efeitos. Com isso, foi desenvolvida uma escala de avaliação de cognição específica para ECT, o que é uma excelente novidade, já que hoje utilizamos escalas referentes à demência.

Outra conquista é que o Instituto Castro e Santos (ICS) foi a clínica escolhida para traduzir essas escalas para o português, além de validá-las no Brasil. Obviamente, com as novas informações, todos os protocolos de avaliação de cognição do ICS serão modificados, visando adaptá-los a esses novos preceitos.

Por fim, a redução dos efeitos cognitivos é mais um importante golpe contra o estigma que acompanha a ECT.

 

Quais seriam os próximos passos?

O primeiro passo é, com certeza, melhorar a humanização da Eletroconvulsoterapia (ECT) e combater o estigma do procedimento. Pensando nisso, vários centros têm autorizado a permanência de familiares durante as sessões de ECT. O Instituto Castro e Santos (ICS) é uma das clínicas que adotou o conceito de ECT Centrada na Família. Com essa nova forma de trabalho o instituto obteve resultados incríveis, tanto com os pacientes quanto com os acompanhantes, que têm uma visão completamente diferente (positiva, claro) quando assistem o tratamento.

Já o segundo passo é diminuir os efeitos cognitivos e criar mecanismos para melhor a mensuração e a tipificação destes efeitos.

 

Histórico da ECT

No início da década de 1990, as medicações psicotrópicas demonstraram que tinham um limite terapêutico e de evolução. Nesta época, a estigmada Eletroconvulsoterapia (ECT) voltou a ser uma alternativa para tratamento de algumas doenças psiquiátricas.

A efetividade da ECT para transtornos de humor ou psicóticos nunca foi questionada no meio científico. Contudo, para ser aceita pela sociedade, a técnica teve de ser reinventada, melhorando os aspectos que a fizeram um dos tratamentos mais polêmicos de toda a medicina.

Durante os últimos 30 anos a ECT passou por diversas mudanças, visando o conforto do paciente e a diminuição dos efeitos colaterais. Já na década de 1980, ela passou a ser realizada com relaxante muscular e anestesia, cessando assim as dores provocadas pelas contrações motoras. Outra mudança foi a obrigatoriedade de fazer o procedimento apenas em ambientes com monitorizações cardíaca e neurológica, além de equipamentos de suporte de vida.

Com isso, deu-se um passo importante para garantir a segurança dos pacientes e reduzir as complicações do procedimento a níveis muito pequenos. Além disso, o uso de anestesia e a mudança da ECT de manicômios para ambientes controlados tornou a técnica cada vez mais ‘’médica”.

Outra grande conquista é que na década de 1990 trocou-se o pulso em onda (já proibido no Brasil) pelo pulso simples. Ou seja, conseguiram melhorar o tempo de recuperação do paciente. Tem-se utilizado, ainda, a titulação como método de definição de carga e, nos últimos 10 anos, algumas clínicas estão se dedicando à criação de mecanismos para evitar as recaídas, destacando o uso do Lítio e da ECT de manutenção.

Dr. João Armando de Castro Santos é médico psiquiatra e coordenador do setor de Eletroconvulsoterapia do ICS – Instituto Castro e Santos e membro certificado da International Society for Electroconvulsive Therapy and Neurostimulation – ISEN