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Se tem algo que me incomoda profundamente nessa discussão sobre Eletroconvulsoterapia (ECT) são as pessoas falarem “fiquem tranquilos, o procedimento não é mais o mesmo terror que era antigamente”.

Vamos aos esclarecimentos para que ninguém dissemine informações erradas:

Sim, a ECT evoluiu

Obviamente, a ECT evoluiu muito nos últimos 40 anos, assim como a colecistectomia (retirada da vesícula), a apendicectomia (retirada do apêndice), a quimioterapia, entre outros procedimentos. A medicina está em constante evolução e com a novas tecnologias e os novos estudos todas as terapêuticas médicas estão melhorando também.

A ECT nunca foi usada para tortura

As pessoas se prendem muito à ideia de que a ECT era um procedimento “ruim”, que foi evoluindo, e agora se tornou “bonzinho”. É importante ressaltar que a ECT nunca foi usada para tortura. Os métodos de tortura, como aplicação de choque em membros genitais, na época da ditadura militar, não eram Eletroconvulsoterapia e sim uso de eletricidade para castigar as pessoas. Apenas isso! A ECT sempre foi uma técnica na qual é utilizada a eletricidade com a finalidade de provocar convulsões no cérebro – e não em outras partes do corpo – para tratamento de determinados problemas psiquiátricos. Qualquer coisa diferente disso não é ECT!

Procedimento autorizado e regulamentado pelo CFM

Em 2013, o Conselho Federal de Medicina (CFM) definiu regras para aplicação da ECT, que só pode ser realizada em ambientes com suporte médico adequado.

Tratamento que salva vidas

As pessoas estão muito focadas nos conteúdos falsos e/ou preconceituosos que circulam pela internet, mas se esquecem de consultar um especialista ou mesmo procurar informações confiáveis sobre os resultados extraordinários da ECT na vida de pacientes com depressão grave ou mesmo histórico de tentativa de suicídio.

Atualmente, a ECT é um dos tratamentos mais seguros e eficazes para pessoas com transtornos psiquiátricos graves ou indivíduos que não responderam à medicação. Inclusive, essa técnica pode ser aplicada em grávidas e idosos, tamanha é a segurança dela. Então, antes de julga-la procure conhecer melhor os benefícios dela.

Séries, novelas e filmes: disseminadores de preconceito

Infelizmente, os canais de comunicação de massa que deveriam ajudar a sociedade a ter mais informações estão fazendo justamente o contrário. Frequentemente me deparo com novelas, filmes e séries que retratam a ECT de forma errada, transformando um tratamento médico num espetáculo de horrores.  Mas isso acontece porque não há hoje uma normatização para divulgação de procedimentos médicos nessas produções. Enquanto os conselhos e associações médicas não se unirem para impedir essas barbaridades cinematográficas, o preconceito contra a Eletroconvulsoterapia será disseminado e mais pessoas serão privadas de um tratamento seguro, eficaz e que, principalmente, pode salvar vidas.

Um novo conceito de ECT

No início da década de 2000, na Clínica Meninger, em Houston (EUA), foi criado o conceito ECT Centrada na Família, no qual os pacientes podem ser acompanhados por familiares durante todo o tratamento, inclusive na sessão.

O ICS Brasília, onde sou responsável técnico e coordenador do serviço de Eletroconvulsoterapia, é a primeira clínica no Brasil a adotar esse conceito.

Os relatos dos pacientes e familiares são extremamente positivos. Segundo eles, essa prática proporciona mais segurança a quem será submetido ao procedimento, além de ajudar a combater preconceitos e estigmas da ECT.

Não julguem os psiquiatras do passado

Aquele ditado “é muito fácil apostar no cavalo após saber o resultado da corrida” nunca fez tanto sentido quanto agora. Ao longo da história da medicina muitos médicos adotaram condutas que à luz da medicina atual são absurdas. Mas é preciso entender que esse era o conhecimento deles na época. Médicos, no passado, já fizeram sangrias, operaram sem luvas, indicaram ECT para dependência química ou retardo mental. Entretanto, novamente, era o conhecimento que eles tinham naquele momento. E é por isso que existem novas pesquisas, para que a medicina evolua e melhore cada vez mais.  Vamos imaginar daqui uns 50 anos. Provavelmente, os especialistas do futuro irão considerar o que fazemos atualmente, de forma natural, como um absurdo. Mas nem por isso somos maus profissionais, só porque não temos ainda esse conhecimento evoluído. Pensemos nisso!