Por Dr. João Armando de Castro Santos

Psiquiatra do Instituto Castro e Santos e pós-graduando em psiquiatra forense

O estigma de que pacientes psiquiátricos são mais propensos a cometer crimes e atos de violência ainda é muito difundido em nossa sociedade. Porém, o que muitos ainda desconhecem é que essa percepção não é real.

Em uma análise do tema, diversos estudos pontuam que a proporção de crimes cometidos por indivíduos com doenças mentais é semelhante a da população em geral. Tal fato foi resumido adequadamente em um artigo do psiquiatra brasileiro, Wagner Gattaz.

Outro fato interessante, demonstrado em uma pesquisa liderada pela Professora de Criminologia e Justiça Criminal, da Universidade Hamline, em Minnesota (EUA), Jillian K. Peterson, é que grande parte dos delitos exercitados por pessoas portadoras de transtornos psiquiátricos não tem relação ou não pode ser justificado pelos sintomas da doença em questão. Entre os crimes observados pelos autores do estudo, apenas 17% deles poderiam ser explicados por alguma característica da condição mental do indivíduo como, por exemplo, uma perda do controle de impulso ou uma psicose ativa.

Mas então por que a sociedade ainda tem essa visão equivocada?

Em parte, esse estigma se deve à falta de conhecimento das pessoas sobre os transtornos mentais. Ainda vivemos numa sociedade em que a depressão ainda é considera como frescura e que psiquiatra é médico de gente doida. Essa visão distorcida e preconceituosa tem sido combatida e, aos poucos, percebe-se uma mudança de conceitos.

Outro fator, que pode levar à disseminação dessa ideia, é o uso de transtornos mentais como estratégia dos advogados para ajudar seus clientes, uma vez que alguns crimes praticados por pacientes psiquiátricos podem ser considerados inimputáveis, ou seja, não pode ser punidos, pois o indivíduo, devido a sua doença, não teria a capacidade de entender o fato e controlar suas ações.

Entretanto, é importante esclarecer que a maioria desses delitos não se enquadra nesse conceito e que ser portador de uma doença mental não é justificativa para praticar crimes e não ser julgado.

Por fim, casos de crimes ou atos de violência cometidos por doentes psiquiátricos, como seriais killers, pessoas psicóticas que matam entes queridos ou cometem delitos bárbaros em locais públicos, normalmente, têm grande repercussão na mídia, o que contribui também para formação dessa visão errônea.

Por isso, cabe a especialistas na área de saúde, com apoio da imprensa, trabalhar para mudar essa percepção. Ao invés de noticiar algo tão somente para chocar a população, os veículos de comunicação precisam se conscientizar e cumprir seu papel social de levar informação confiável para a comunidade. Só assim será possível diminuir o preconceito em torno dos transtornos psiquiátricos e possibilitar mais acesso a tratamentos que podem ajudar a salvar vidas.