Você falaria para uma pessoa com câncer que a doença dela é por falta de Deus? Falaria para um diabético que basta ele ter mais vontade que a glicemia abaixa? Faria uma máscara de Carnaval de um paciente magro em decorrência da AIDS? Filmaria uma gestante vomitando e mandaria para todos seus contatos, de maneira sarcástica e rindo?

Provavelmente a sua resposta é NÃO. Entretanto, as pessoas não hesitam em fazer piadinhas com pacientes psiquiátricos que passam por situações iguais ou semelhantes a essas. Já passou da hora de começarmos a refletir o porquê os vídeos com indivíduos bêbados, com surtos psicóticos ou mesmo com consequências de abuso de drogas viralizam na internet.

Os recentes memes e a máscara com o ator Fábio Assunção para o Carnaval reacenderam uma discussão muito importante: por que as pessoas não veem a dependência química como doença? Na verdade, acredito que esse debate deve ser, inclusive, mais amplo, pois o que percebemos é que os problemas psiquiátricos em geral não são vistos como doenças.

A psiquiatria é a área médica responsável por estudar as doenças que levam a alterações de comportamento. Porém, infelizmente, o pensamento de que as pessoas sempre agem da maneira que querem ainda está enraizado na população. Esse “achismo” ganha forças pela falta de exames laboratoriais e de imagem que confirmem os diagnósticos da psiquiatria.

Ou seja, no tribunal da sociedade se alguém tem determinado comportamento é culpa dele (a) e pronto. Mas isso nem sempre é verdade! Muitos indivíduos podem ter comportamentos advindos de uma alteração mental.

O julgamento moral da sociedade é um dos maiores pesos que um paciente psiquiátrico carrega. E isso dificulta a melhoria da enfermidade, afasta a pessoa do tratamento, aumenta o sofrimento e, pior ainda, leva muitos pacientes a cometer suicídio.

Durante esse período de Carnaval critiquei, de forma privada, várias pessoas por utilizarem a máscara do Fábio Assunção. As reações foram exatamente as que eu esperava. Todos me viram como o chato, que não entende uma simples brincadeira. Longe de mim ir contra brincadeiras, mas quando estamos diante de uma doença as piadinhas devem, sim, ter mais cuidado. Ainda mais se não forem generalizadas e sim direcionadas a uma pessoa.

Mesmo diante de tantas piadinhas humilhantes, Fábio Assunção surpreendeu a todos. O artista, ao ver seu nome em uma música de extrema zoação, teve uma atitude magnífica: ao invés vez de censurar a música, o ator exigiu que todo o dinheiro arrecadado fosse doado para tratamento de dependentes químicos.

Me questiono quantos que usaram essa máscara aceitariam ver aquilo que lhe causa mais vergonha ser exposto em tom de deboche para todo o país e ainda usariam isso para ajudar seus semelhantes.

Por fim, essa é uma reflexão que todos nós temos que fazer, afinal de contas, quem não tem limitações em alguma área da vida que atire a primeira pedra.